14/01/2009

A cidade chama seus aos que a adoptam, e os que dela partem continuam a chamar-lhe sua. Porque as cidades nunca são pontos de partida, são sempre cais de permanentes chegadas. E mais do que espaços físicos, são a soma dos sonhos daqueles que as habitam ou habitaram. E expostas as banalidade iniciais passemos ao concreto.

A cidade, ao contrário do que gostamos de pensar, não é culpa de um. É de todos nós. Neste momento reflectir sobre o Porto é acima de tudo reflectir sobre o actual momento do país e na forma de ser português no século XXI. Sendo certo que o Porto vive momentos particularmente difíceis, fruto das visões puramente economicistas de quem nele manda, a verdade é que as cidades são muito mais que os seus líderes, que um dia serão apenas visões nebulosas perdidas no anonimato das memórias vagas.

E se o Porto é neste momento um deserto de oportunidades, que não luta contra a sangria rápida que nos leva as gentes e a capacidade de concretizar sonhos, a culpa é de cada um de nós. Dos que ficam sentados à espera que a conjuntura melhore, dos que se mexem pouco no pressuposto do que pouco é melhor que nada, dos que sem forças para partir não tem também a força de saber ficar.

Ricardo Alves

1 comentário:

Luis disse...

Fui ver a vossa peça no TeCA. Muitos parabéns! Adorei! Chamar-lhe-ia uma comédia melancólica, pois por trás das gargalhadas que resultam da excelente construção do texto e interpretação, paira a nuvem da partida...No entanto, "O nevoeiro não nos pode vencer!".

Contudo, queria contrariar apenas um ponto. Sinceramente acho que, apesar de tudo, o Porto oferece mais oportunidades de que há uns anos atrás, e isso pode ser comprovado em termos de oferta cultural (que tão bem era retratada no Culture Club do Porto Canal).
A grande diferença está no facto de que dantes a Câmara era o principal motor da actividade cultural. Neste momento,e em grande medida graças aos esforços de pessoas como vocês que tratam de "meter a mão na massa" e não estar à espera que as coisas aconteçam, verificamos que as fontes de dinâmica cultural estão mais independentes do poder político. Isto fortalece a "Indústria cultural" da cidade, uma vez reduz a dependência de alterações das politicas culturais da Câmara. Neste sentido, acho que a Palmilha Dentada é um óptimo exemplo de que é preciso dar espaço à sociedade civil para ocupar o lugar que é seu por direito, para que não tenhamos que estar sempre de mão estendida à espera do subsidio da Câmara, o que permite obter ganhos enormissimos em termos de liberdade criativa.

Continuem!!

Luis Filipe Pereira