03/06/2006

A Broa Da Vinci - Parte III - Um caso complicado

...E então ela entrou. Alta, esguia, senhora de si. Esta não tropeçaria numa qualquer passerelle, nervosa por se tentar equilibrar em tacões altos, não se engasgaria a pedir para fazer um telefonema na tasca da cerveja das sete para trolhas em fim de serviço, não olharia para trás após recuar em demasia o carro e partir o farolim do taxista estacionado. Não, esta não! O fumo do seu cigarro slim desenhava no ar bailados místicos de seres etéreos. Fitava-me altiva, como quem hipnotiza um pinto para o degolar de seguida. A camisola colada ao corpo tinha lá chapado “possui-me”. Era daquelas onde se pode escrever o que quisermos, pagando-se letra a letra. Os seus cabelos loiros esvoaçavam loucamente para trás, como se tivesse uma ventoinha constantemente apontada a si. Os olhos, matreiros, iam-se semicerrando em tom provocador por entre a loucura dos seus cabelos cada vez mais esvoaçantes. Com toda aquela corrente de ar provocada pela minha janela aberta para trás e a porta que ela não tinha fechado, uma folha voou e colou-se-lhe à cara com uma força tal que a fez cair para trás. Fechei a janela. Ela levantou-se, recompôs-se e limpou a cinza dos olhos. O cabelo estava todo despenteado e os olhos já estavam bem abertos. Eram lindos... Verdes. E foi aí que resolvi lançar o meu charme. Atirei-lhe com o meu olhar sedutor. Nunca falha. Pus-me de 3/4, nariz ligeiramente empinado, de forma a que pudessem ser vistas as minhas narinas forçadamente abertas e a definição ímpar do meu queixo masculino. Depois, com movimentos muito descontraídos franzia as sobrancelhas em completa sincronia. Muita gente tenta fazer este olhar em vão... Quase todos erram aqui, no movimento inebriante das sobrancelhas. A dança deve ser perfeitamente coordenada, como se elas fossem a crista de uma onda de sedução vinda dos olhos. É aí que a magia surge. O castanho dos meus invadiu o verde dos dela, suavemente... Como quem deixa escorrer um fio de molho de soja para um crepe de vegetais, exactamente ao centro... o castanho entra no verde delicadamente e vai-se espalhando no interior recheando-a de uma atracção inevitável. Ela levou a mão à carteira, tirou um euro e meio e disse: “Quero um panado em dois por favor.” Disse-lhe que a cantina da firma de contabilidade era no andar de baixo e aconselhei-lhe o cachorro com molho da casa. Saiu e nunca mais a vi.
Pouco depois entrou aquela que será por vós conhecida ao longo desta narrativa como Sophie. O seu verdadeiro nome era Sofia Sanguedo e vinha de uma aldeia do Minho. Era baixa, gorducha, cabelo e olhos escuros, nada atraente... Disse-lhe logo que já tinha uma empregada da limpeza. Ela respondeu com uma pergunta:
- É você o José Engrácia?
- Sim, mas...
- José Engrácia Detective ou Acompanhante para senhoras sozinhas?
- Que horas são?
- São três e meia da tarde.
- Então sou detective. Mas chame-me Enfunny Joe por favor...
- Enfanicou?
- Enfunny... Joe!
- Enfunilou?
- Enfunny, fã fã, Enfunny, Joe.
- Enfatigou.
- Enfunny … Esqueça, chame-me apenas Joe.
- Jou.
- Joe, tipo Jô...
- Como se escreve?
- J, O, E.
- Joy. Muito bem. Senhor Joy, tenho um caso complicado para si...

9 comentários:

Le disse...

Soooooooooooo, the plot thickens....

Sara disse...

Fabuloso!!! Estás a escrever cada vez melhor...

... se bem que ficaste tão vidrado na prateleira da menina do panado que o teu título se descontrolou... "BRA" da Vinci?

Palmilha Direita disse...

Tens toda a razão. Vou já mudar o título! Sabes que esta vida de escritor é muito solitária e... bom...

Paperback Writer disse...

A espera é mesmo algo angustiante!
Sempre na expectativa do próximo post... e não, ainda não é desta que o véu se levanta integralmente!
Mas os tambores rufam cada vez mais alto!!
Ai rufam, rufam!!

Ficamos todos à espera da revelação de Sophie!

(e não nos deixes pendurados mais um mês!)

Abraço!

Mushi disse...

Mal posso esperar por mais uma dentadinha na broa dabintes!

Anónimo disse...

Também eu! Sendo fã incondicional da broa, da-me cá uma fome!... FS

Roni disse...

Tu és lindo, Palmilhinha!!! Aguardo com querença o desenrolar deste enredo...

lulumad disse...

.......Amiga Olga.....algures em 199X.......Quem foi leonardo da vinci?
a) Criador da broa d'Avintes
B) o vocalista dos Da Vinci

Triste é, Palmilha Direita que tenhas de ir buscar inspiração, com quase 15 anos, à nossa amiga Olga.........Se achas que é dificil ser escritor nem queiras saber o que é ser leitor...eheheheh

Palmilha Direita disse...

Lu... Não tenho a tua idade! Quando a Amiga Olga estava no ar, eu tinha aulas à tarde...na primária!!! Tu na altura já estarias a mandar curriculuns para o primeiro emprego como recém-lienciada! Logo, tu verias a Amiga Olga, eu não.
Inocente, ora pois!
Pfft... Eu lá sou do tempo em que dizer "chave" ou "dinheiro" prometia réplica pronta do interlocutor!
Uma beijada cota