04/07/2006

Boby na avenida dos subsídios

Caros leitores cibernéticos, leitores de WAP, blogleitores, leitores que lêem o texto depois de imprimido e que teoricamente já não serão blogleitores, leitores que têm alguém a ler-lhes o texto porque não podem ou não sabem ler e que apesar de não serem leitores strictu sensu são-no latu sensu, leitores em geral, Heitores porque é uma palavra tão parecida com leitores e nós queremos que esta comunicação chegue a tanta gente que não podemos descurá-los, enfim, todas as pessoas que gostam de nós ou que pelos menos nos lêem, e, finalmente, pessoal médico especializado que por prestar cuidados em instituições onde estão internadas todas as pessoas supra referidas também terá acesso ao texto, pessoal médico que terá de tratar deste pessoal médico que por ler o texto acabou também por ser internado e assim sucessivamente,

Venho por esta forma esclarecer que não me revejo no texto da Palmilha Esquerda. Concordo em absoluto que apenas se dê subsídios a associações que não maldigam a pena que assinou o cheque! Convido os caros leitores e Heitores a seguirem este meu raciocínio: estamos na rua a passear, sei lá, nos Aliados por exemplo, quando do meio da frondosa vegetação da magnífica avenida aparecem dois canitos esfomeados (sim, porque não encontraram o lixo de outros tempos no chão da cidade, já que os serviços de limpeza são de uma eficiência absoluta) e naquele raro espaço de segundos entre um cão vadio aparecer no Porto e ser apanhado pelo canil, os cães dão à cauda, levantam as patinhas da frente e fazem aquelas trenguices do costume. Mais enternecido do que entusiasmado com o truque – convenhamos… quantos cães não há por aí a fazer estes truques que são sempre iguais? E nós damos-lhes comida porquê? Por pena! – um dos Heitores dá-he um biscoito. O cão, depois de comer meio biscoito enterra o resto para um dia mais tarde acabar, quando o que o Heitor visou ao dar-lhe o biscoito era que ele o comesse ali, na hora, mas não tem mal! Que fique para um dia mais tarde! Fecha-se os olhos a isso! Não se vai lá desenterrar o biscoito. Até porque o sacanita vem depois lamber-lhe a mão em agradecimento. Agora imaginemos que o leitor dá um biscoito ao outro cão. Este come-o e de seguida urina no sapato do leitor. O leitor daria um novo biscoito a este cão? Ou daria um biscoito ao cão do Heitor? É óbvio que não daria um biscoito ao segundo cão! Aliás, se fosse esperto, atiraria um biscoito para o meio da rua na esperança de que o cão, estúpido (os cães que urinam e não lambem mãos são cientificamente considerados mais estúpidos), ao correr para apanhá-lo, fosse colhido por um Bentley “Old Mother Gun” de 1928 ou por um Oldsmobile de 1935 que, ocasionalmente, circulassem nas ruas do Porto. É também óbvio que daria um biscoito ao simpático cão que não lhe mija no sapato e lhe lambe a mão. As lambidelas são tão agradáveis! Fazem cócegas nas palmas das mãos, palmas que se juntarão e separarão repetidamente ao assistir ao próximo levantar de patas e abanar de cauda.

4 comentários:

Santa Ignorância disse...

Não sei se te urine a perna ou te lamba as mãos? De que sabor são os biscoitos?

antoniofs disse...

Hmm...
Eu acho que tu, Palmilha DIREITA, és um homem do sistema; és um infiltrado nesse grupo!
Apreciei deveras o texto, e, dialecticamente, quase tomei o que dizias por acertado.
Mas depois de um longo período de reflexão (2 ou 3 segundos; mais não porque cansa) cheguei a uma conclusão.
Divergente, por sinal...

Parece-me que é do ponto de vista:
falas em dar de comer, na óptica de quem dá; falas do prazer e do desprazer experimentado pelo alimentador como factor determinante do acto em causa;
contudo, proponho-te o outro lado: quem tem fome é o cão; não é o Heitor, nem o leitor; assim, o que deve motivar o acto de alimentação é a fome do receptor; não o gesto egoísta do outro!
Assim sendo, e se não foi possível evitar que aqueles pobres animais andassem por aí mal nutridos, devem ser alimentados por força da fome que trazem dentro deles. E só por isso..

Não sei se era a isto que o P. Esquerda se referia...

Olha, mas isto sou só eu!
:P

Abraço!

Roni disse...

;) Não obstante o texto brilhante, caro palmilha direita ( que realça a sua condição de ociosidade), serei obrigada a concordar com o paperback.. é um ponto de vista bem mais real; não esquecendo que geralmente: "é cão que nao reconhece o dono"...

ricardo leite disse...

viva o discurso metafórico....

VIVA!