Foi ontem a grande final. Aberta, aguerrida, bem disputada. O resultado, porém, foi o esperado: ganhou Salazar, o ditador.
Na hora do anúncio, Jaime Nogueira Pinto disfarçou o orgulho com a falsa modéstia de ter evitado discursos de vitória. Portas, Ana Gomes e Júdice mostraram algum alheamento sensato. Gonçalo Cadilhe manteve o tom humorístico com que encarou todo o concurso. Clara Ferreira Pinto, Leonor Pinhão e Hélder Macedo iluminaram a noite com posturas e discursos que só não agradaram aos menos atentos. Finalmente, Rosado Fernandes exaltou o público ao traçar a primeira análise sociológica do resultado e Odete Santos, que apadrinhou Cunhal na contenda, não disfarçou a derrota. Mais, empolgou-a com um entusiasta discurso antifascista, de indicador erguido na direcção de Nogueira Pinto, concluindo com um “O fascismo não vencerá”. Antes disso já tinha trocado várias palavras com o público, repudiando aquilo a que chamou de "propaganda fascista constitucionalmente proibida". Deu importância a uma votação condenada à partida a ser vista como inquinada por fanáticos, enfiando uma carapuça que Portas já tinha recusado quando, e muito bem, afirmou não haver nada a retirar de uma votação claramente mobilizada por duas facções extremas que se digladiaram até final, fruto de uma mobilização negativa.
Para mim, se descontarmos os telefonemas pagos por velhos inadaptados saudosistas, idiotas de cabelo rapado, ou amantes compulsivos de vodka tatuados de Che Guevara (que certamente não sabem quem foi), o grande português foi, sem dúvida, Aristides. Mérito de ter sido defendido por José Miguel Júdice, o mais bem sucedido dos advogados portugueses, e de vir embalado pelo marcante síndrome do Schindler de Spielberg. Com pena minha, já que o trono assentava melhor a D. João II ou Camões.
Finalmente, antevendo as baboseiras que serão ditas em breve pelos quadrantes mais alarmistas e disparatados dos nossos comentadores, deixo-vos uma história que ilustra o que foi esta eleição dos Grandes Portugueses e o impacto sociológico que causou na nossa população de brandos costumes: aqui há uns meses correu uma mensagem nos telemóveis de muita gente com que privo. Em alarme, alguém pedia para ligarmos urgentemente para um número. Claro que, perante um pedido alarmista de uma amiga, toda a gente o fez. Do outro lado ouvia-se: “O seu voto foi para António de Oliveira Salazar”. Era uma brincadeira que nos fez gastar uns trocos. No nosso caso, a remetente da mensagem era… uma iraquiana radicada com toda a família em Lisboa!