Vivo num pais livre que dificilmente consegue ser livre.
É muito a custo que vamos vivendo tentando manter a face.
É escandalosamente triste que haja eleitos que se sintam no direito de refazer o direito.
Temos um eleito, reeleito representante dos eleitos, que aconselha outros eleitos a receber á pedrada representantes do direito e da lei nacional.
Temos um outro que “dá subsídios” apenas a quem aceitar não criticar a mão que lhe “dá” de comer. O mais triste é que ele nem percebe o que é o subsídio.
A sociedade civil faz aquilo que o estado não faz, não sabe, nem quer fazer. E é aí que nasce o subsídio. O subsídio é uma esmola que o estado dá a quem faz o que ele não quer, mas devia fazer. E sai mais barato assim. Muito mais barato.
Alguém por favor que nos livre da gente pequenina e ridícula. Que venham os tipos de capachinho, mas que pelo menos sonhavam a cidade.
Pior que um burocrata num lugar de chefia é um burocrata com tiques de dirigente de uma qualquer oligarquia da América latina.
São tão tristes os tristes.
30/06/2006
29/06/2006
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19/06/2006
Caixa Negra
Sono. Tanto sono…mas não. Agora não.
Já limitava os graus. Não que a partida o não fizesse de início, mas dantes via mais longe. E com muito menos trabalho.
Ainda pra mais estava preso em sítios. Muitos sítios.
Não tinha nada quebrado. A não ser uma voz que fazia em criança. E o próprio espaço da quebra, que estilhaçava sempre mais um pedaço de cada vez que tentava lembrar-se para onde tinha ido a outra asa de um avião em queda, imitado em serões de família. Era inútil. Crescer fora aquilo. Envelhecer era partir coisas e fazer chagas no corpo.
Sono. Tanto sono. Mas não… ainda não.
Se vamos dormir sentados, então que a hora seja oportuna, pensava. E depois, fechava os olhos durante um bocado e descolava a língua do palato, só para escutar o som da cortiça. Sêco. Matutino. O céu não será nada disto …pelo menos há mais água…mais leveza…e nuvens…muitas nuvens…dormir agora era oportuno. Sim…fechar os olhos agora era muito oportuno…esquecer a carne e as horas mortas e o barulho do pó nas escaras e fazer como em criança… Rir muito de olhos fechados e imitar um avião… Rir muito alto, encontrar a outra asa e imitar um avião! Fechar os olhos agora era tão bom, pai…deixa-me dormir agora e diz-me que agora é que é…fecho os olhos pesados e escuto o som dos motores. Dormir agora é oportuno, pai…
Ar rasgado. Pele curtida nas costas. Esgar contido. Olhos abertos.
Sono. Tanto sono. Mas não. Hoje não…
À sua frente uma criança ruiva, bem nutrida e bem vestida, crava os olhos bem abertos nos que há pouco se fechavam. Numa mão um avião, na outra um grande chicote. Rasga um sorriso inocente e deixa o brinquedo cair.
Ainda não é oportuno!
Já limitava os graus. Não que a partida o não fizesse de início, mas dantes via mais longe. E com muito menos trabalho.
Ainda pra mais estava preso em sítios. Muitos sítios.
Não tinha nada quebrado. A não ser uma voz que fazia em criança. E o próprio espaço da quebra, que estilhaçava sempre mais um pedaço de cada vez que tentava lembrar-se para onde tinha ido a outra asa de um avião em queda, imitado em serões de família. Era inútil. Crescer fora aquilo. Envelhecer era partir coisas e fazer chagas no corpo.
Sono. Tanto sono. Mas não… ainda não.
Se vamos dormir sentados, então que a hora seja oportuna, pensava. E depois, fechava os olhos durante um bocado e descolava a língua do palato, só para escutar o som da cortiça. Sêco. Matutino. O céu não será nada disto …pelo menos há mais água…mais leveza…e nuvens…muitas nuvens…dormir agora era oportuno. Sim…fechar os olhos agora era muito oportuno…esquecer a carne e as horas mortas e o barulho do pó nas escaras e fazer como em criança… Rir muito de olhos fechados e imitar um avião… Rir muito alto, encontrar a outra asa e imitar um avião! Fechar os olhos agora era tão bom, pai…deixa-me dormir agora e diz-me que agora é que é…fecho os olhos pesados e escuto o som dos motores. Dormir agora é oportuno, pai…
Ar rasgado. Pele curtida nas costas. Esgar contido. Olhos abertos.
Sono. Tanto sono. Mas não. Hoje não…
À sua frente uma criança ruiva, bem nutrida e bem vestida, crava os olhos bem abertos nos que há pouco se fechavam. Numa mão um avião, na outra um grande chicote. Rasga um sorriso inocente e deixa o brinquedo cair.
Ainda não é oportuno!
15/06/2006
Ladrão que rouba a ladrão...
- E então? Que trazem aí?
- Aqui tens o produto simples, para o consumidor comum. É o que se vende melhor.
- Ok, ok. Rápido! E esses dois o que são?
- Este é mais caro. É ali dos Himalaias, Índia, por aí. Vende-se muito bem e já é conhecido de quase todo o mercado...
- Ui! Um gajo ouve falar em produto da América do Sul, agora Himalaias...
- Pá, essa é a mentalidade portuguesa. Tudo o que é novo não presta, não se experimenta. Olha, a minha mulher torceu o nariz quando lhe levei um pacote para casa. Agora não quer outra coisa.
- A sério? A tua mulher?
- Sim, até os meus sogros já só querem disto. Deixaram o outro.
- Os teus sogros? Que cena...
- Sim. No natal estávamos todos à volta da mesa e até a miudagem provou e gostou. É mais purinho, 'tás a ver?! Um gajo sabe o que mete cá pra dentro. Não tem cá químicos e essas tretas.
- Porra! Dás aos miúdos?
- Sim. Eu sei que não devia ter dado. Agora a minha carteira é que sofre... Antes tivessem ficado pelo outro, que é mais barato.
- Está bem, dá cá um pacote para eu experimentar. E esse? Esse é o quê?
- Este vem da Tailândia. É ainda mais caro e raro. Fragrância de jasmim.
- Aqui tens o produto simples, para o consumidor comum. É o que se vende melhor.
- Ok, ok. Rápido! E esses dois o que são?
- Este é mais caro. É ali dos Himalaias, Índia, por aí. Vende-se muito bem e já é conhecido de quase todo o mercado...
- Ui! Um gajo ouve falar em produto da América do Sul, agora Himalaias...
- Pá, essa é a mentalidade portuguesa. Tudo o que é novo não presta, não se experimenta. Olha, a minha mulher torceu o nariz quando lhe levei um pacote para casa. Agora não quer outra coisa.
- A sério? A tua mulher?
- Sim, até os meus sogros já só querem disto. Deixaram o outro.
- Os teus sogros? Que cena...
- Sim. No natal estávamos todos à volta da mesa e até a miudagem provou e gostou. É mais purinho, 'tás a ver?! Um gajo sabe o que mete cá pra dentro. Não tem cá químicos e essas tretas.
- Porra! Dás aos miúdos?
- Sim. Eu sei que não devia ter dado. Agora a minha carteira é que sofre... Antes tivessem ficado pelo outro, que é mais barato.
- Está bem, dá cá um pacote para eu experimentar. E esse? Esse é o quê?
- Este vem da Tailândia. É ainda mais caro e raro. Fragrância de jasmim.
03/06/2006
A Broa Da Vinci - Parte III - Um caso complicado
...E então ela entrou. Alta, esguia, senhora de si. Esta não tropeçaria numa qualquer passerelle, nervosa por se tentar equilibrar em tacões altos, não se engasgaria a pedir para fazer um telefonema na tasca da cerveja das sete para trolhas em fim de serviço, não olharia para trás após recuar em demasia o carro e partir o farolim do taxista estacionado. Não, esta não! O fumo do seu cigarro slim desenhava no ar bailados místicos de seres etéreos. Fitava-me altiva, como quem hipnotiza um pinto para o degolar de seguida. A camisola colada ao corpo tinha lá chapado “possui-me”. Era daquelas onde se pode escrever o que quisermos, pagando-se letra a letra. Os seus cabelos loiros esvoaçavam loucamente para trás, como se tivesse uma ventoinha constantemente apontada a si. Os olhos, matreiros, iam-se semicerrando em tom provocador por entre a loucura dos seus cabelos cada vez mais esvoaçantes. Com toda aquela corrente de ar provocada pela minha janela aberta para trás e a porta que ela não tinha fechado, uma folha voou e colou-se-lhe à cara com uma força tal que a fez cair para trás. Fechei a janela. Ela levantou-se, recompôs-se e limpou a cinza dos olhos. O cabelo estava todo despenteado e os olhos já estavam bem abertos. Eram lindos... Verdes. E foi aí que resolvi lançar o meu charme. Atirei-lhe com o meu olhar sedutor. Nunca falha. Pus-me de 3/4, nariz ligeiramente empinado, de forma a que pudessem ser vistas as minhas narinas forçadamente abertas e a definição ímpar do meu queixo masculino. Depois, com movimentos muito descontraídos franzia as sobrancelhas em completa sincronia. Muita gente tenta fazer este olhar em vão... Quase todos erram aqui, no movimento inebriante das sobrancelhas. A dança deve ser perfeitamente coordenada, como se elas fossem a crista de uma onda de sedução vinda dos olhos. É aí que a magia surge. O castanho dos meus invadiu o verde dos dela, suavemente... Como quem deixa escorrer um fio de molho de soja para um crepe de vegetais, exactamente ao centro... o castanho entra no verde delicadamente e vai-se espalhando no interior recheando-a de uma atracção inevitável. Ela levou a mão à carteira, tirou um euro e meio e disse: “Quero um panado em dois por favor.” Disse-lhe que a cantina da firma de contabilidade era no andar de baixo e aconselhei-lhe o cachorro com molho da casa. Saiu e nunca mais a vi.
Pouco depois entrou aquela que será por vós conhecida ao longo desta narrativa como Sophie. O seu verdadeiro nome era Sofia Sanguedo e vinha de uma aldeia do Minho. Era baixa, gorducha, cabelo e olhos escuros, nada atraente... Disse-lhe logo que já tinha uma empregada da limpeza. Ela respondeu com uma pergunta:
- É você o José Engrácia?
- Sim, mas...
- José Engrácia Detective ou Acompanhante para senhoras sozinhas?
- Que horas são?
- São três e meia da tarde.
- Então sou detective. Mas chame-me Enfunny Joe por favor...
- Enfanicou?
- Enfunny... Joe!
- Enfunilou?
- Enfunny, fã fã, Enfunny, Joe.
- Enfatigou.
- Enfunny … Esqueça, chame-me apenas Joe.
- Jou.
- Joe, tipo Jô...
- Como se escreve?
- J, O, E.
- Joy. Muito bem. Senhor Joy, tenho um caso complicado para si...
Pouco depois entrou aquela que será por vós conhecida ao longo desta narrativa como Sophie. O seu verdadeiro nome era Sofia Sanguedo e vinha de uma aldeia do Minho. Era baixa, gorducha, cabelo e olhos escuros, nada atraente... Disse-lhe logo que já tinha uma empregada da limpeza. Ela respondeu com uma pergunta:
- É você o José Engrácia?
- Sim, mas...
- José Engrácia Detective ou Acompanhante para senhoras sozinhas?
- Que horas são?
- São três e meia da tarde.
- Então sou detective. Mas chame-me Enfunny Joe por favor...
- Enfanicou?
- Enfunny... Joe!
- Enfunilou?
- Enfunny, fã fã, Enfunny, Joe.
- Enfatigou.
- Enfunny … Esqueça, chame-me apenas Joe.
- Jou.
- Joe, tipo Jô...
- Como se escreve?
- J, O, E.
- Joy. Muito bem. Senhor Joy, tenho um caso complicado para si...
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